Seja volúvel e torna-se-á volátil

terça-feira, 10 de abril de 2007

Dicionário

Quando ela o viu tentou disfarçar colocando um saco pardo de pão na cabeça.
— Tira isso. Você está no mínimo estranha e ridícula...
— Entre a gente não há mais nada!
— Vejo o vendedor de algodão doce!
— Tá oquei!, atravessa a rua e vem conversar comigo. Seja o mais rápido possível, cretino.
Ele atravessou a rua, compreendido em seu objetivo de reatar seu namoro, e seu tênis.
— Por que você nunca amarra isso?
— Lembra que era você quem fazia isso?
— Ah, mas você não é bem crescidinho, não? Ou, então, volta pra barra da saia da sua mãe!
— Aonde você vai?
— Te disse que tava com pressa...
— Por favor, vamos conversar naquele barzinho? Só um minuto!
— Tá, tá...
Foram ao barzinho.
— O que deu de errado entre a gente? Perguntou ele.
— Me pergunte o que deu certo. Respondeu ela.
— Minhas cuecas? Foi por causa delas? Aqueles riscos todo o mundo dá...
— Ai, pára. Você é ridículo!
— Eu te amo.
— Ama nada. E fala isso de cinco em cinco segundos.
(...).
— Eu te amo.
— Ó.
— Por favor,...
— Acabou Luís.
— Garçom...
— Não, seu chato! Tô dizendo nosso relacionamento.
— A gente tem muita coisa em comum.
— O quê, por exemplo?
— Bom...ahn...seu pai e o meu morreram de câncer.
— Que?! Nossa, que coisa em comum, não é? Como você é desagradável!
— Hei Rita, me diz, o que fez a gente terminar? Hein? Foi sexo?
— Fala baixo!
— Então foi sexo...
— Não é isso, é que tá todo mundo ouvindo, animal!
— Lembra que você me chamava de meu coelhinho?
— Ai, pronto, animal...só podia.
— Dizia um monte de coisas no meu ouvido porque sabia que eu tinha cócegas.
— Não mesmo, era pra você escutar melhor, e ainda hoje parece que você continua surdo!
— Como?
— Tá, tchau.
— Você tem outro namorado?
— Outro namorado, outro namorado...não estou namorando você pra ter outro namorado. Eu tenho sim, um namorado.
— Hum...
— E você?
— Não digo.
— Crianção.
— Não digo.
— Tem ou não tem?
— Pra que você quer saber?
— Pra saber ué. Você também me perguntou a mesma coisa. Daí, tem?
— Você pode tirar qualquer coisa de mim, inclusive as calças, mas não isso.
— Então é porque não tem ninguém. Fica fazendo média. O fracasso está lhe subindo a cabeça.
— Você sempre achou que sexo oral era só me chamar de gostoso.
— Otário.
— Achei alguém que me compreende a eu.
— Hi!, e olha que não é fácil, ainda mais com esses erros de concordância...
— Achei outra pessoa que também se excita com palavras difíceis...
— Luís!, não começa...
— Paralelepípedo...
— Luís...por favor.
— Otorrinolaringologista, lactescência...
— Ai...
— Abdominalgia.
— Desgraçado, sempre sabe meu ponto fraco.
— Constitucionalissimamente, consuetudinário.
— Pára!!!!.
— Exprobratório... Cancã.
— O que?!
— Exprobratório.
— Não, o que você disse por último.
— Cancã, aquela dança.
— Cancã? Cancã? Ah vai pra...!
Rita saiu às pressas, tropeçando nas mesas e ecoando palavrões. Luís daquele dia em diante consultou melhor o dicionário. A dança até pode ser, mas a palavra cancã, realmente, não excita.

___________________________________________________Tio Dino

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